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Gestão & Liderança Postado em terça-feira, 02 de fevereiro de 2021 às 10:39
Foi durante um treinamento para executivos de um grande banco que caiu a ficha sobre as dores de ser líder. Até aquele momento, achávamos que entendíamos os dilemas e questões, mas sempre ficava uma sensação de que entre prós e contras o saldo era positivo, aliás, acreditamos que nossas experiências como líderes são até hoje as melhores (mais do que como empreendedores, inclusive).  Afirmamos com segurança que nossas memórias como líder são extremas e consistentemente positivas e neste artigo vamos discorrer sobre nossos porquês.

Durante aquele workshop sobre Transformação Digital para um grupo de executivos do mercado financeiro, resgatamos um pouco das três revoluções industriais que antecederam a que estamos e nossa abordagem sobre esse tema é antropológica, de modo que trazemos as aplicações das tecnologias exponenciais como um meio de se chegar a escala e não sua condição; ou seja, a importância do novo modelo mental está em descobrir o que faz sentido para as pessoas em seus problemas intrinsecamente humanos e não atendidos, em que ter amplitude de solução é consequência da sua relevância, não necessariamente premissa.


Enquanto explorávamos essa perspectiva, um Superintendente levantou a mão e, visivelmente assustado com o despertar da sua própria consciência, disse:

- Entendi agora o porquê eu estou tão p*** em ser líder! [silêncio e pausa]
- [e continuou] Eu me f*** a vida inteira tomando porrada, fazendo no ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’, sem ‘dar um pio’, no cabresto, e agora que chegou a minha vez eu ‘tenho que conversar’, ‘perguntar qual a necessidade do meu funcionário’, entender porque ele tá insatisfeito; é isso?

Em tom irônico, concordamos dizendo:
- É, é mais ou menos por aí. Se você seguir hoje no ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’, muito provavelmente só vai obedecer quem não tem muita opção ou se sente inseguro ou despreparado para buscar outra coisa. De todo modo, não é uma retórica que vai se sustentar por muito tempo. A “transformação digital” arrasta consigo o pedido por autenticidade e respeito. Ou você respeita, ou não lidera. E sem liderar, dificilmente vai ter as suas próprias necessidades – de resultados, bônus, status, reputação, promoção, ou o que quer que sejam – atendidas. 

Aquele dia ficou claro: liderar hoje requer outra premissa de negociação, porque os valores para execução mudaram. A nossa condição para fazer mudou – claro que dentro de uma fala privilegiada. 


Daquele momento do parêntese do Superintendente em diante o workshop se transformou num espaço de franca abertura, transparência, confiança, e vulnerabilidade. E, soubemos depois, que dos 28 líderes, homens-cis, hétero, brancos, a ampla maioria voltou com suas equipes e reproduziu, cada um a sua maneira, o aprendizado de ouvir, estabelecer empatia genuína, e se colocar disposto a colaborar, restabelecendo no grupo uma visão co-construída, compartilhada e centrada em propósitos comuns.

Toda vez que recordamos desse episódio ou que o utilizamos para exemplificar algumas questões em relação ao “paradigma da liderança”, outras perspectivas em conversa surgem e, afinal, o que é ser líder no século XXI? E por que verdadeiramente está mais difícil do que nunca? Por que é um fato que parece mais ônus do que bônus e não só uma percepção?

A resposta é simples: porque finalmente nos permitimos nos humanizar no trabalho. O fazer é que é complexo: evidenciar essa “humanização” ainda é raro, ainda é mais regra do que exceção, mais “estranho” do que “normal” e, portanto, o xis da questão que a torna complexa e desafiadora.

Por “inconformidades” como essas, de parecer sermos inadequados no “corporativo”, é que “ter sido líder foi uma das experiências mais gratificantes de toda a nossa vida”.  

Se pegarmos como exemplo o tal Superintendente do workshop, a começar pela decisão que ele tomou em expor sua dificuldade quando trouxe à tona “à que veio”, “sem poder ser mais”, o risco que ele corria só trouxe ganhos – para todos.

 Ali vivemos uma experimentação de que ao mesmo tempo em que “ser líder nunca foi tão difícil”, talvez nunca terá sido tão gratificante, porque assim como no esporte, em que independe a modalidade que você pratica, você se exercita – ponto – e, para tanto, precisa de disciplina, foco, limite (saber dizer não, que fique claro), determinação, objetivo específico, resiliência. 

Não importa o esporte que vai praticar, se individual ou coletivo, fato é que será exigido, no mínimo, consistência para performar – e as recompensas virão. E não é só sobre o prêmio ou o troféu, é maior do que isso: é sobre o que você sente quando você ganha, quando você se supera, quando você melhora a si mesmo.

Ou, tal como no empreendedorismo, não importa se por necessidade ou oportunidade; se comércio, varejo, tecnologia, b2b, b2c, grande, pequeno, crescendo, ou quebrando. Empreender requer propósito, impulso criativo, resiliência e resistência, flexibilidade, adaptabilidade, negociação, risco como tomada de decisão, aprendizagem rápida, inconformismo como padrão, pensamento crítico e muita, muita, muita empatia pelas pessoas que não são você.

Dessa forma, é do indivíduo também a escolha por adotar o tipo de liderança que lhe cabe, se esse for seu caminho de (auto)realização: se servidora, carismática, autoritária, inclusiva, exponencial, visionária, inspiradora, democrática, coach. O líder é um ativo agente de mudanças capaz de impactar tanto sua própria realidade quanto a realidade dos outros por meio do protagonismo e da execução como exemplo.

Pessoal e profissionalmente, liderança significa saber quem você é, o que quer e como traçar planos para atingir seus objetivos, exigindo a priori autoconhecimento como uma ferramenta que potencializa suas habilidades e que gera condições para alcançar seus sonhos e desejos. Independentemente da modalidade ou do nicho, ser líder requer, como “nunca antes na história desse mundo”, que exerçamos, que pratiquemos, que atuamos, façamos, a partir de:


1. Vulnerabilidade


Por muito tempo a figura do líder foi construída em alguém (aparentemente) sem medos, que não erra, implacável e que “sempre vence”. Com o tempo essa abordagem foi perdendo espaço e as facetas de um líder vulnerável começaram a emergir.

Segundo Brené Brown, doutora, conferencista sobre o tema: “Vulnerabilidade não é ganhar nem perder. É ter a coragem de se expor, mesmo sem poder controlar o resultado. Vulnerabilidade é sinônimo de coragem. Coragem de enfrentar tudo e estar vulnerável para melhorar e não desistir.”

Mas até pouquíssimo tempo atrás era impensável que um líder ousasse se permitir se sentir inseguro ao expor de maneira “falha” suas ideias diante colegas ou clientes: não nos foi ensinado que “poderíamos” – “ainda mais você, que é líder!”.

Fosse simples assim, podermos ser quem verdadeiramente somos, inclusive em nossas vulnerabilidades, veríamos entre líderes e liderados uma relação baseada em sistema de trocas por conexão, fortalecendo vínculos de modo estreito e sólido, com ricos intercâmbios para desenvolvimento e aprendizado em via de mão dupla. 
Ou seja, novamente, só há ganhos, porque, percebam, em relações como essa é inviável o abuso entre pessoas, evitando assim a formatação de um ambiente de trabalho tóxico: só a partir da colaboração genuína e do interesse do líder em se permitir se colocar em dúvida do que fazer, como fazer em respeito ao ineditismo dos fatos na Era vigente é que reformularemos o ecossistema das organizações para um ambiente saudável.

Gerar capacidade e empoderar essa pseudo fragilidade tem sido o grande desafio das empresas recentemente e uma ótima oportunidade para humanizar as relações, começando pela permissão e licença para que os líderes simplesmente sejam: o fortalecimento do potencial partirá disso.


2.  Confiança

Tornar-se líder não é tarefa fácil: é uma construção diária de se reinventar, (re) descobrir habilidades, escutar, escutar e escutar, a si e aos outros.
Uma liderança positiva é essencial para o mundo dos negócios. Em um ambiente tão característico como o meio corporativo, essa afirmação mostra ainda mais sua força. Em meio a uma série de cobranças, pedidos de clientes na última hora, modificações de rota, contratempos na gestão financeira, entre outros desafios cotidianos, ter um bom líder para colocar tudo em ordem e manter a equipe atuante e motivada é essencial.

Segundo o CEO e fundador da Netflix, Reed Hastings, estabelecer vínculos de confiança deveria ser o primeiro “to do” de um líder, quase uma condição sine qua non ao papel da liderança em uma organização. De todo modo, ela não é uma instrução, ela é um despertar de um sentimento no outro, provocado por uma comunicação aberta e transparente: “Distorcer a verdade é uma das maneiras mais fáceis de os líderes corroerem a confiança. Não sei como ser mais claro: simplesmente não faça isso. Seu pessoal não é idiota. Quando você tenta enganá-los, eles percebem, e isso faz você parecer falso. Fale com clareza, sem tentar fazer com que situações ruins pareçam boas, e seus funcionários saberão que você diz a verdade”.

Bill Treasurer, consultor americano, autor do livro “Courage Goes to Work”, diz que para você criar, crescer e então estabelecer confiança é preciso mostrar evidências de que é confiável, exigindo da liderança nas organizações uma atitude ativa e proativa de “you go first”. Segundo o professor e pesquisador, um dos meios mais legítimos e assertivos para se conquistar a confiança das pessoas no meio corporativo é a adoção de um comunicação honesta e vulnerável que, portanto, evidenciará ao líder sua humildade, abrindo espaço para que os demais se conectem voluntariamente àquela ideia, projeto, área e, claro, pessoa.

Formatados em uma cultura de baixa transparência, agendas ocultas e competitividade extrema, os indivíduos não sabem como baixar a guarda para entregarem-se em confiança. Aprender a trabalhar sob esse mecanismo é definitivamente uma das atribuições mais corajosas que um profissional pode ter hoje, porque o risco é um fato e a resposta uma incerteza. 

Por outro lado, ela é também previsivelmente transformadora e disruptiva, afinal, o potencial inovador em uma organização inicia a partir do momento em que as pessoas escolhem colaborar umas com as outras, simplesmente porque confiam umas nas outras, na derrota ou na vitória. 

Para o brtiânico autor, professor, pesquisador e influenciador mundial Simon Sinek: “A confiança começa a surgir quando temos a sensação de que a outra pessoa é movida por outras coisas além de seu próprio ganho”. Ou seja, só se o líder se permitir sentir é que ele saberá se está no caminho da confiabilidade: não é uma instrução, um processo ou uma racionalização: é desenvolver uma capacidade de sentir e fazer com que os outros sintam também.

Segundo o próprio Sinek: “Seguimos os líderes não porque precisamos, mas porque queremos”. Ser liderado é também uma escolha.


3.  Adaptabilidade & Flexibilidade

Com bastante frequência vemos paralelos entre atletas de alta performance e líderes do meio corporativo. De fato, disciplina, sabedoria, determinação, frustrações e aprendizados que a jornada esportiva proporciona vão de encontro com os obstáculos a serem superados no dia a dia do trabalho de maneira geral.

Dentre vários exemplos com os quais dialogamos, queremos trazer o do Rafael Nadal, um dos maiores tenistas do mundo – atualmente segundo no ranking global – que narra sua perspectiva de como os ensinamentos por meio do esporte contribuem no desenvolvimento de uma liderança positiva e necessária:

Sobre o que Nadal nos ensina, existe um trabalho exaustivo de desenvolvimento da resistência mental: Quantas partidas ele disputou e superou, entre dias ruins, dias bons, adversários várias vezes em desempenho melhor do que o dele, dentro de uma agenda de torneios sucessivos?

Nadal, para superar-se,se cercou de uma equipe que o favorece em fôlego físico e emocional, capaz de melhorá-lo continuamente em suas habilidades e flexibilidade mental-cognitiva, tornando-o apto a vencer os obstáculos, e por conseguinte, partidas. 

Um líder do mundo dos negócios pode e deve seguir o mesmo caminho, apropriando-se dos talentos da sua própria equipe para enfrentar os desafios sob pressão, seguindo em frente.

Um atleta profissional trabalha com intensidade na medida certa, e o foco contribui para a excelência dos resultados: treina de maneira constante, se dedica aos mínimos detalhes para melhoria de performance, e estuda seu adversário – o que, no mundo das organizações, seria um líder estar conectado com o mercado, roteirizando suas ações e prioridades a partir da leitura de contexto na qual está inserido. 

Ainda tendo como referência o Nadal, há algo neste caso em específico que não podemos negar: se somos bons em algo, podemos nos tornar AINDA melhores. Nadal é o mestre no saibro. Na França ele é o maior vencedor de todos os tempos. Implacável, sabe como ninguém como tirar vantagens e performar da melhor maneira. No nosso dia-a-dia, onde podemos ser implacáveis? Onde conseguimos extrair o melhor de cada um de nós e dos nossos times?


4.  Inteligência Emocional | Flexibilidade Cognitiva

A consistência de um líder se faz presente de diferentes formas e atitudes, mas não necessariamente por pressão ou intensidade e força. No mundo dos negócios, o líder é colocado à prova em diversos momentos.

Independentemente da abordagem que o líder escolher seguir para mobilizar as pessoas em busca de resultados, há apenas uma premissa para atuação: faz-se necessário preparo. Seja uma dúvida da equipe, um conflito em um projeto, um imprevisto com um cliente ou uma abrupta mudança no mercado, liderar é um hábito. 

A questão é que esse preparo não é técnico – ou, não só técnico mais: ele é também emocional. Ao passar da última década, sobretudo, a liderança foi demanda em requerer constante autoconhecimento e resiliência às suas próprias tomadas de decisão, para que rapidamente se adaptasse, melhorando também a sua performance e aprimorando suas ações, diariamente, quantas vezes fosse possível se testar, para que então obtivesse não só resultados, mas resultados melhores do que obteria de outra forma: linear, persuasiva e diretiva. O resultado resulta. 

Na complexa dinâmica em que todos estamos inseridos, se liderar é um hábito, ser líder é um processo de “tornar-se líder”. Sabemos que ainda há muitos chefes e poucos líderes ou líderes que não estão em posição ou cargo de liderança: líderes genuínos mantêm a consistência no humor, a estabilidade na atitude perante a equipe e pares, na forma como lida com pessoas ao longo dos dias, por mais ingratos e inglórios que sejam muitos dos momentos. Alguns empreendedores afirmam que alguns dias são como uma montanha russa: acorda feliz, almoça chorando, janta preocupado e dorme aliviado (ou as vezes nem dorme!), não necessariamente nesta ordem, vale o disclaimer.

A liderança exige de cada um de nós dedicação e aprendizados constantes. Passamos a ser referência para os nossos times e pares. Decisões passam a impactar em um âmbito muito maior e amplo. Deixamos de pensar no eu, para pensar em nós, no todo.

Certa vez ouvimos a seguinte frase: “O chefe se serve do time. O líder serve ao time. Em português claro: muito ajuda quem não atrapalha – subjetivo demais? 

Da nossa perspectiva de aprendizado como líderes, entendemos que atrapalhamos quando impomos uma pressão provocada por um desequilíbrio emocional nosso, por uma falta de saber lidar que começa por nós mesmos. Atrapalhamos quando impomos liberdade e autonomia até onde nós temos controle, e não para que o liderado exerça seu potencial por meio de seus talentos. Atrapalhamos quando estamos inseguros e ao invés de nos colocarmos vulneráveis e pedir ajuda por meio de uma comunicação honesta e transparente, optamos pela agressiva. Atrapalhamos quando falamos e não fazemos, confundindo o time e desconstruindo confiança. 

Paramos de atrapalhar quando decidimos olhar para nós mesmos, reconhecer nossos talentos e nossas sombras, buscando ajuda para nos melhorarmos; e começamos a contribuir positivamente quando decidimos cuidar do nosso equilíbrio, inteligência e autocuidado emocional, porque só a partir daí estaremos aptos a estabelecermos empatia, com uma generosa dose de humildade. 

Sobre a relevância desse tema, Dafna Blaschkauer, diretora global de produtos da Nike para Ásia, Pacífico e América Latina, e ex-tenista profissional, diz que: “Aprendi a lidar com cobrança, expectativa e a controlar minhas emoções para performar sob alta pressão desde cedo. A inteligência emocional teve — e tem — um papel fundamental”. Segundo ela, essa habilidade é uma aliada imprescindível ao líder, principalmente quando ele tem que responder àqueles “brancos” quando acha que ‘perdeu e não vai conseguir acertar mais nada’, sendo estrategicamente relevante para “conseguirmos um bom desempenho em condições adversas”.


E em que tempo vivemos, senão adverso?
Ser líder é ser capaz de navegar por uma jornada constante e sem linha de chegada, já que cada vez mais nossas entregas prescindem de autoconhecimento, empenho, foco e dedicação – a si e à equipe – sendo fundamental agir consistentemente ao longo de um tempo “sem fim”.

Ser líder é estar interessado em desenvolver uma capacidade ininterrupta de aprendizado, refazendo, testando, experimentando uma nova forma de construir resultados, transformando-os em legado; afinal, se “ter uma baixa” é inerente à vida, por que seria diferente no trabalho? 

Enfim, líder será aquele que triunfará mesmo na adversidade, fazendo dessas “baixas” um trampolim que o aproxima de uma nova chegada, que, não sendo o final de uma jornada, será sempre o recomeço para novos patamares de realização. 

Fonte: Gestão 4.0
Artigo escrito a 4 mãos com Bárbara Teles
Gestão & Liderança Postado em terça-feira, 26 de janeiro de 2021 às 10:07


A pandemia da Covid-19 leva os líderes a terem de enfrentar a imprevisibilidade, as informações truncadas, as incógnitas e a necessidade de encontrar respostas rapidamente – ao mesmo tempo que reconhecem a natureza multidimensional da crise (aspectos relacionados à saúde, econômicos, sociais, políticos e culturais).

Responder à crise exige uma liderança adaptativa, que envolve o que chamamos de os quatro “As”:
- Antecipação de necessidades, tendências e opções futuras prováveis.
- Articulação dessas necessidades para a criação de entendimento coletivo e apoio para ação.
- Adaptação para que haja o aprendizado contínuo e o ajuste das respostas conforme necessário.
- Accountability (responsabilidade) que inclui máxima transparência nos processos de tomada de decisão e abertura quanto aos desafios e ao feedback.

Todos os quatro “As” ficam muito claros nas respostas bem-sucedidas à pandemia. Tomem, como exemplo, a empresa farmacêutica AstraZeneca. Graças à sua enorme operação na China, tiveram conhecimento do vírus logo no início e começaram a trabalhar para antecipar as necessidades e os problemas futuros, ao mesmo tempo que navegavam em incertezas e incógnitas consideráveis. Articularam essas necessidades para uma vasta gama de stakeholders internos e externos com o objetivo de obter compromisso e apoio, e adaptaram novos modelos de negócio e parcerias para atender de maneira eficaz às necessidades mais urgentes para o combate à Covid-19, sobretudo o desenvolvimento de uma vacina, testes e métodos de testagem, desenvolvimento de unidades de saúde, bem como o uso de AI para apoio de diagnósticos e gestão de casos. Talvez, o mais notável é que a empresa estabeleceu uma abordagem inclusiva de responsabilidade (accountability), com o compromisso de apoiar a resposta global à Covid-19 “tanto de forma econômica como igualitária” quanto possível – incluindo os numerosos acordos para a produção e distribuição de qualquer vacina eficaz em larga escala, sem nenhum lucro, durante o período da pandemia.

Através da nossa experiência coletiva no centro da resposta à Covid-19 pela OMS (David), aconselhando aqueles nos principais cargos de governos nacionais (Arkebe), liderando e fazendo recomendações sobre grandes e complexos sistemas de saúde (Ruth) e apoiando as respostas à crise em países desenvolvidos e em desenvolvimento, bem como em relação a providências humanitárias (Ben e Leni), identificamos cinco importantes princípios comuns para orientar esse tipo de liderança adaptativa durante a resposta à Covid-19.


1. Assegure o aprendizado e a adaptação baseados em evidências

Liderança adaptativa significa que as equipes e organizações devem sempre avaliar suas ações, reconhecendo que terão, continuamente, de repetir e adaptar suas intervenções à medida que aprendem com os resultados de suas decisões. Isso exige processos claros para determinar as melhores opções de ação: coletar, interpretar e atuar com base em evidências, incluindo definir um conjunto de medidas principais para determinar o êxito ou o fracasso; assegurar a coleta constante de dados operacionais relevantes; e estabelecer um processo claro de como as mudanças nos dados e tendências desencadearão as mudanças em curso.

Vimos que colocar a adaptação e o aprendizado social no centro da resposta dessa maneira é um elemento crucial na gestão do surto recente da doença, especialmente como vimos com o Ebola na África Ocidental. Uma análise da efetiva erradicação da varíola demonstrou que o sucesso foi atribuído a processos de adaptação estratégica e aprendizado – mais do que qualquer outro fator.

Esse processo de aprendizado deve ser aberto e diversificado para que possa ser eficaz. Por exemplo, o governo alemão adotou a recomendação não só de epidemiologistas e especialistas médicos, mas também de cientistas sociais, filósofos, historiadores de ciência, teólogos e juristas, ao lidar com um delicado equilíbrio ético, para realizar a reabertura da sociedade sem deixar de resguardar a saúde da população.


2.  Teste de estresse reforçando teorias, suposições e crenças

Do mesmo modo que instituições como bancos se submetem regularmente a teste de estresse para se assegurar de que podem lidar com crises futuras, suposições e hipóteses que conduzem à necessidade de uma resposta adaptativa, devem se submeter à reflexão e a exames robustos e rigorosos, inclusive por meio da simulação de possíveis e diferentes cenários futuros.

Uma das abordagens mais sistemáticas e rigorosas de planejamento do cenário da Covid-19 foi desenvolvido pelo Boston Consulting Group. Recorrendo à abordagem militar do aprendizado estratégico, eles defendem que as empresas estabeleçam um modelo de “antecipação, inteligência e resposta” que possa sustentar a tomada de decisão das empresas. Ao utilizar essa abordagem, foram desenvolvidos diferentes cenários para serem usados nos setores automotivo, de moda e de artigos de luxo. Esses cenários consideram as sérias incertezas na situação da saúde pública, o impacto das medidas governamentais, o ambiente econômico mais amplo e as previsões de demanda específicas do negócio, fazendo uso do monitoramento em tempo real como base para a tomada de decisão.


3. Agilize as decisões deliberativas 

Um grande desafio enfrentado pelos líderes é que os dados sobre a Covid-19 mudam o tempo todo e são, muitas vezes, contraditórios. Quando os tomadores de decisão se sentem ameaçados, tornam-se muito mais propensos a recorrer a respostas avessas ao risco e fragmentadas para garantir um nível de segurança que decorre de metas estreitamente definidas.

Os tomadores de decisão em diferentes níveis precisam ser claros sobre onde estão baseando suas suposições e hipóteses. Devem explicar o que está sendo feito e por quê, e como tomaram uma decisão, a fim de que, se erros forem identificados, a confiança ainda possa ser mantida no processo.

As respostas nacionais mais bem sucedidas: na Coreia do Sul, em Taiwan e na Alemanha; em iniciativas que não são tão divulgadas, como no Vietnã e na Etiópia; e em esforços subnacionais tais como Kerala, Índia — utilizaram a pandemia como catalisadora para a transformação do processo político, tornando-o mais aberto, dinâmico e ágil. Essas respostas também aprimoraram a integração entre diferentes sistemas – do serviço de saúde ao transporte e à energia elétrica – que resultou em níveis inéditos de planejamento, compartilhamento de informações e coordenação.


4. Fortaleça a transparência, inclusão e accountability (responsabilidade)

As pessoas em todo o mundo viram-se obrigadas a alterar seu comportamento, e isso traz custos significativos para a sociedade, empresas e governos. Dado aos riscos serem tão altos, é preciso examinar como as primeiras decisões foram tomadas, tendo em mente as informações disponíveis à época. A avaliação da resposta atual em tempo real faz-se necessária para maximizar o aprendizado. Essas avaliações devem incluir todos os principais stakeholders – dos profissionais à população afetada.

Os melhores líderes adaptativos – de líderes empresariais a formuladores de políticas a organizadores comunitários – reconheceram que erros podem ocorrer, e que os utilizaram de maneira ativa para identificar oportunidades de aprendizado compartilhadas. Por exemplo, o National Health Service (Serviço Nacional de Saúde) do Reino Unido iniciou um diálogo aberto sobre como a parcialidade institucionalizada para lidar com a Covid-19 levou a níveis maiores de dor e sofrimento entre pacientes e profissionais da saúde negros e de minorias étnicas. E houve reconhecimento nos níveis mais altos que, independentemente de quão difícil esse processo possa ser, isso deve ser visto como um “ponto fundamental de inflexão” para um dos maiores provedores de saúde.

O Centro Europeu para Controle e Prevenção de Doenças defendeu o uso de revisão pós-ação e processos semelhantes para avaliar como as decisões sobre saúde pública foram tomadas em diferentes períodos e com base em quê. Se considerarmos que a resposta à pandemia está cada vez mais sendo vista como uma maratona e não como uma corrida de velocidade, é vital avaliar o que aconteceu até agora, para que possamos identificar as prioridades estratégicas e trocar informações sobre lições aprendidas. Isso significa que os líderes precisam se comprometer a compartilhar seu modo de pensar em cada etapa e, agindo de maneira aberta e transparente, estabelecer um benchmark para como se envolver com seus constituintes e stakeholders à medida que a pandemia progride. Mais do que isso, ao reconhecer que não são infalíveis, os líderes criam um ambiente de sinceridade, segurança psicológica e confiança mútua que é vital para uma resposta eficaz à crise. 


5. Mobilize a ação coletiva

A crise causada pela Covid-19 não é só uma crise de saúde pública; é também uma crise econômica, social e política. Trata-se de um problema de “sistemas complexos”  que exige mudança de comportamento e incentivos e das relações entre diferentes grupos e organizações. Portanto, respostas eficazes devem ser baseadas na colaboração entre diferentes setores, ramos de atividade e profissionais e entre os diferentes níveis – local, nacional e internacional – uma ambição que se mostrou difícil de ser colocada em prática.

Para tanto, a ação coletiva deve ser na forma de coordenação (por exemplo, entre empresas), parcerias entre diferentes grupos de interesse (por exemplo, empresas e comunidades), ou diálogo entre vários stakeholders. A liderança adaptativa tem um papel crucial na identificação do alinhamento compartilhado dos objetivos e escopos da ação coletiva em diferentes fragmentos e níveis de resposta. Essas interações enriquecem o debate, são inclusivas e melhoram a propriedade das decisões. 

Houve algumas intervenções multissetoriais notáveis abrangendo recursos públicos, privados e de entidades sem fins lucrativos exatamente nessa ordem. No Reino Unido, por exemplo, o conhecimento compartilhado da capacidade do sistema de saúde existente garantiu um feito histórico que rapidamente colocou em operação todos os hospitais do setor privado para uso pelo National Health Service (Serviço Nacional de Saúde), a preço de custo, levando a um aumento da disponibilidade de leitos e equipamentos. A sociedade civil e grupos de cidadãos também desempenharam um papel central na mobilização de abordagens inclusivas da pandemia, especialmente em áreas com menos recursos. Respostas locais surgiram na forma de apoio para os mais vulneráveis liderado pela comunidade  em Bhopal, Índia; a redefinição da capacidade de fabricação para permitir que EPIs fossem produzidos localmente nos EUA; e o fortalecimento da abordagem da “economia social”  visando reconstruir economias afetadas a partir da base no Canadá e em vários países europeus.

O que fazemos ao responder à crise terá repercussões por muitos anos e décadas futuras. Esses cinco princípios de liderança adaptativa não são só vitais para orientar nossas respostas imediatas; serão também vitais para formular os planos de recuperação e resiliência de longo prazo. Nosso futuro coletivo pode ser incerto, mas essa incerteza está no centro da criatividade humana.

Fonte: Harvard Business Review