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Gestão & Liderança Postado em terça-feira, 28 de julho de 2020 às 10:24

Relatório recente da Harvard Business School descobriu que os líderes empresariais estão profundamente preocupados com o estado da democracia nos EUA. Quase sete de cada dez alunos pesquisados da HBS acreditam que a democracia está em risco e que políticas disfuncionais estão impactando negativamente a competitividade do país. A maioria apoia reformas políticas, como diminuir a influência do dinheiro na política, acabar com a gerrymandering (manipulação dos mapas eleitorais) e introduzir inovações como o voto por ranking de escolha. Mais de metade concorda que a atuação das empresas na política é problemática.

Esses resultados ecoam uma pesquisa nacional com mais de mil líderes empresariais que nossa organização sem fins lucrativos, a Leadership Now, conduziu no fim de 2019. Descobrimos que nove em cada dez líderes estavam preocupados com o estado de nossa democracia; sete em cada dez estavam “muito preocupados”; e metade acreditava que tinha responsabilidade pessoal de agir.

Mas que tipo de iniciativa eles devem tomar? Muitos líderes empresariais não têm certeza do que podem fazer para ajudar a fortalecer e proteger a democracia e os sistemas democráticos, ou com quem se associar para causar o maior impacto.

Responder a essa pergunta tem sido o foco de nossa organização desde que foi fundada em 2017 por dez ex-alunas da Harvard Business School, todas mulheres, que trabalhavam no setor público e no privado. Nos últimos três anos, seis cidades dos EUA se tornaram filiadas, com quase 200 membros, homens e mulheres, metade formada por ex-alunos da HBS. Depois de nossa rigorosa análise do sistema político, nosso Mapa do Mercado da Democracia, por exemplo, mapeia US$ 56 bilhões em gastos políticos anuais, agora recomendamos investimentos em um portfólio de empresas de alto impacto que buscam soluções sistêmicas. A OpenSecrets, que rastreia o dinheiro na política, é uma das organizações que apoiamos, assim como a Democracy Works, que fornece a estrutura tecnológica de muitos esforços online para inscrição eleitoral e estímulo ao voto. Também facilitamos a colaboração contínua entre líderes empresariais, acadêmicos, formuladores de políticas públicas e envolvidos na reforma da democracia, e conversamos e aprendemos com líderes globais na luta pela democracia em seus países de origem.

Descobrimos que a expertise, as abordagens e as redes de negócios, trabalhando em coalizão com outras pessoas, podem desempenhar um papel essencial na criação de soluções e na conversão de ideias em ação. Neste momento histórico que exige o envolvimento de todos nós, identificamos quatro ações que os líderes empresariais podem praticar para melhor proteger, reformar e repensar os sistemas democráticos:
         - Expressar a própria opinião.
         - Usar os próprios conhecimentos.
         - Usar inovações de pesquisa de mercado.
         - Defender o investimento no setor público.


EXPRESSE SUA OPINIÃO

Os empresários podem usar sua rede informal com grande eficácia para amplificar questões que ameaçam as normas democráticas, especialmente quando afetam a economia. Considere o que aconteceu na Turquia no ano passado. Mesmo correndo sérios riscos pessoais, os grupos empresariais manifestaram de forma enfática suas opiniões em conversas com colegas internacionais, chamando a atenção para a manipulação da moeda pelo primeiro-ministro Racep Tayyip Erdoğan antes das eleições, uma tentativa de manter a aparência de uma economia forte, mesmo quando estava fraca.

Quando Erdoğan declarou que as eleições municipais de Istambul não foram válidas (os resultados mostraram que seu partido perdera após mais de 20 anos governando a cidade), os mesmos grupos o pressionaram para respeitar os resultados, embora não tenham tido sucesso na empreitada.

Mas eles não pararam por aí. Com sua rede global, continuaram compartilhando relatos apartidários e precisos do que estava acontecendo no país, contatando políticos, ONGs e gestores de fundos multinacionais para obter apoio para um processo democrático nas novas eleições, três meses depois. Essa vigilância levou a UE a denunciar a decisão de refazer as eleições, e os investidores manifestaram sua relutância em investir na Turquia caso as eleições fossem fraudulentas. Tudo isso ajudou a impedir Erdoğan de descartar os resultados quando seu grupo perdeu novamente.

A Leadership Now dialoga com alguns desses líderes empresariais turcos. Esperamos aprofundar nosso conhecimento sobre a influência das empresas no fortalecimento da democracia em outros países e usar esse conhecimento para entender a situação dos EUA.


USE SUA EXPERTISE

Embora nem sempre o modo de operar das empresas possa ser aplicado efetivamente no Senado e na Câmara dos Deputados, há áreas de especialização que podem ajudar os governos democráticos a trabalhar melhor. Uma área em que o progresso é visível é a transformação no local de trabalho. As empresas em geral têm mais experiência em introduzir e acompanhar inovações com base em pesquisas nessa área, enquanto isso as instituições políticas ficam para trás. Mas a experiência comercial em design organizacional está começando a mudar esse cenário.

Veja o exemplo recente da Rebuild Congress Initiative (RCI). Os índices de aprovação do congresso americano giravam em torno de 20%. Um ex-aluno da Harvard Business School, JB Lyon, empreendedor, investidor e membro do Leadership Now, fez parceria com Bruce Patton, cofundador do Harvard Negotiation Project e coautor de Getting to yes, para entenderem os baixos índices e reverterem a situação. Eles verificaram que o corpo legislativo americano falhou ao operar como empresa moderna porque seu processo de tomada de decisão era de cima para baixo e porque não abordava as questões prementes. Seus membros e funcionários não tinham meios de ação, estavam sobrecarregados e assoberbados. O congresso não tinha departamento de RH e, portanto, não havia processo para recrutar e reter funcionários talentosos e diversos. A tecnologia era antiquada (por exemplo, não havia como “rastrear alterações” nas contas enquanto elas eram emitidas). E as regras para propor leis tornaram-se tão onerosas que impediam novas ideias.

Nem mesmo eleger um grande número de novos ingressantes resolveria esses problemas. Lyon e Patton perceberam que essa era uma questão sistêmica e se propuseram ajudar o congresso a ajustá-la. Em nove meses, o RCI facilitou a criação do Comitê de Modernização do Congresso, órgão partidário. Em janeiro de 2019, o comitê foi lançado (por 418 votos a favor e 12 contra), e desde então emitiu 45 recomendações unânimes para melhorar a instituição. Mais de cem membros do congresso estão envolvidos neste trabalho.

É importante ressaltar que o RCI não se posiciona sobre políticas públicas, e seu sucesso só é possível se os membros do congresso se dedicarem ao trabalho, renovarem o comitê e expandirem seu mandato. Mas Lyon, Patton e sua equipe mostraram que qualquer gestor pode usar seus conhecimentos de negociação, empreendedorismo, transformação institucional e outros tópicos para envolver autoridades de todo o espectro político e ajudá-los a propor soluções criativas de problemas sistêmicos.


USE INOVAÇÕES DE PESQUISA DE MERCADO

A polarização do eleitorado é uma grande ameaça à democracia, em grande parte porque inviabiliza o comprometimento que permite aos líderes políticos chegarem a acordos e aprovarem leis. Combater a polarização é algo que todos nós podemos fazer em nossas interações pessoais, mas entender e combater a polarização mais ampla é um desafio que requer muita criatividade de pensamento, pesquisa e análise. Os líderes empresariais, que costumam criar segmentações de mercado, podem usar esses recursos para lidar com a polarização.

A ONG More in Common é um exemplo: sua equipe usa expertise exclusiva de pesquisa e análise, aprimorados com a experiência de empresários, líderes de políticas públicas, organizações sem fins lucrativos e veteranos militares, para enfrentar o desafio da polarização. Em 2017, junto com um grupo de amigos, o empreendedor de tecnologia cívica Mathieu Lefèvre lançou o More in Common, rede de organizações sem fins lucrativos cujo objetivo é fortalecer a saúde da democracia nos EUA, Reino Unido, França e Alemanha. Descendente de refugiados húngaros, Lefèvre decidiu se dedicar ao combate à desigualdade social e ao nativismo movido por duas tragédias: os ataques ao Bataclan, em Paris, em 2015, e o assassinato da deputada trabalhista britânica Jo Cox em 2016 por seu apoio a imigrantes e refugiados. Enfrentando tensões semelhantes que se propagam nas democracias ocidentais, os cofundadores da More in Common decidiram trazer um novo nível de rigor e inovação às iniciativas que reforçam o tecido cívico das sociedades.

A More in Common usa a análise de dados para pesquisar as causas subjacentes da polarização e da divisão social, descobrindo os valores, crenças e identidades que ajudam a explicar por que as pessoas perdem a confiança umas nas outras e na democracia em geral.

Eles se baseiam nessa pesquisa para segmentar a população e testar diferentes mensagens. Com base no que aprendem, trabalham em conjunto com vários parceiros do setor de organizações sem fins lucrativos, setor público, empresarial e da sociedade civil para desenvolver novas coalizões de base ampla que transcendem as divisões partidárias tradicionais.

Na França, por exemplo, colaboram com a Igreja Católica Francesa na iniciativa plurianual de estabelecer vínculos fortes com as comunidades de imigrantes e refugiados. Nos EUA, o relatório Tribos ocultas: um estudo do ambiente polarizado da América, de 2018, fornece insights profundos sobre os fatores psicológicos da polarização. Mais recentemente, a Leadership Now está apoiando a expansão da More in Common nos EUA, e nosso escritório de Houston faz parceria com essa ONG para entender a visão texana da saúde na democracia americana e promover uma coalizão forte e diversificada como o objetivo de fortalecê-la.


DEFENDA O INVESTIMENTO NO SETOR PÚBLICO

Alguns líderes empresariais estão usando sua expertise para fortalecer o setor público. Nos EUA, um exemplo prático disso é a força-tarefa liderada pelo almirante William H. McRaven e James Manyika, criada recentemente. Por meio do Council on Foreign Relations, um conjunto de proeminentes de líderes empresariais, de tecnologia, além de capitalistas de risco e pesquisadores, recomendaram uma estratégia para manter a inovação na América tornando robustos os investimentos.

O grupo traçou uma nova estratégia baseada em quatro pilares: financiamento, talento, adoção de tecnologia e parcerias e ecossistemas. Ele ajuda os formuladores de políticas públicas a entender os riscos para a segurança econômica e nacional de não aprovar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no setor público nos EUA. O país corre o risco de perder a corrida por novas descobertas de drogas, veículos autônomos e energia limpa. A pesquisa do grupo mostra que a liderança geral dos EUA em ciência e tecnologia foi diminuída pela estagnação de décadas do apoio federal e do financiamento de pesquisa e desenvolvimento. O investimento do setor privado aumentou, mas não para níveis que correspondem aos investimentos anteriores.

Até o momento, poucas recomendações do relatório foram cumpridas pelo governo. Para reverter isso, os líderes de tecnologia e os pesquisadores continuam expressando sua preocupação aos representantes eleitos para o governo. Igualmente importante, eles estão socializando o aprendizado na comunidade empresarial em conferências e outros encontros formais e fazendo com que outros na comunidade façam soar o alarme, para que muitas vozes clamem pelo avanço.


QUE VOCÊ PODE FAZER AGORA

Embora os exemplos acima representem aquilo de que são capazes de realizar os líderes empresariais em posição de poder ou que se dedicam em tempo integral à construção de novas organizações, há que reconhecer que nem todos desempenham esse papel. Isso não significa que você não possa fazer nada. Seja você CEO, gestor ou colaborador individual, há medidas concretas a tomar para aprimorar a democracia.

Vote e mobilize suas redes para votar. Os dados mostram que a mobilização relacional, ouvir pessoas que você conhece e em quem confia, é bastante útil. Converse sobre as eleições, divulgue nas mídias sociais informações sobre as eleições, planeje votar, dê a seus funcionários tempo para fazer o mesmo e incentive outras pessoas a votar. E é de enorme valor a presença do voluntariado no dia das eleições para ajudar na votação ou garantir que as eleições sejam seguras.

Alinhe sua empresa com princípios pró-democráticos. Você sabe se o envolvimento de sua empresa na política está contribuindo para a saúde do sistema? Compreender a natureza, o escopo e o impacto dos recursos e contribuições políticas de sua empresa e garantir relatórios transparentes para sua diretoria e equipe executiva, é um bom começo. O Center for Political Accountability, organização sem fins lucrativos que apoiamos, e o seu índice CPA-Zicklin, afiliado à Wharton Business School, fornecem orientações claras sobre a adoção de políticas de transparência e responsabilidade nos gastos políticos.

Invista na própria democracia. Nossas pesquisas mostram que apenas uma pequena fração dos recursos políticos e filantrópicos dos Estados Unidos, aproximadamente US$ 500 milhões de um total de US$ 400 bilhões em capital filantrópico, ou aproximadamente 0,1%, é destinada a organizações que buscam melhorar a saúde do sistema. Essa escala de financiamento deve aumentar aqui e ao redor do mundo. Algumas organizações que recomendamos para investimento incluem RepresentUs (que apoia iniciativas de votação lideradas por cidadãos para reformar a democracia), New Politics (que prepara novos talentos para concorrer a cargos) e o Voter Participation Center (que implementa esforços de registro e participação de eleitores com base em evidências).

Acreditamos que o retorno desses investimentos é enorme: sistemas políticos que funcionam bem facilitam a resolução de questões prementes, de cuidados com a saúde e educação a infraestrutura e mudanças climáticas.

Nos últimos anos, quando procuramos descobrir soluções promissoras para consertar nossa democracia por meio da Leadership Now, descobrimos que até pessoas aparentemente poderosas nos negócios e na política se sentem cada vez mais impotentes para consertá-la. Esperamos que nosso trabalho e os exemplos descritos acima o ajudem a, diariamente, encontrar maneiras de defender a democracia e revigorá-la para as gerações futuras. Como concluiu a cientista política Hahrie Han, a partir de sua pesquisa sobre como mobilizar a participação cívica, “a democracia é um músculo. Assim como os bebês precisam fortalecer os músculos das pernas para caminhar, todos nós temos de desenvolver as habilidades necessárias para agir coletivamente e alcançar nossos interesses comuns”.

Depositamos nossa esperança em um novo grupo de líderes empresariais que estão fazendo exatamente isso.

Fonte: Harvard Business Review