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Varejo & Franquias Postado em terça-feira, 07 de agosto de 2018 às 06:42
Com menos confiança na recuperação da economia e em sua própria situação financeira, o consumidor brasileiro deve frear o ritmo de compras neste ano.


Do outro lado, sete em cada dez varejistas já sentem piora no cenário econômico neste ano, aponta pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC). A decepção do empresário com as condições da economia fez o nível de confiança do varejista recuar 4,3% em julho - a maior retração desde agosto de 2015.

Os dois movimentos acenderam a luz amarela no varejo, e consultorias já revisam suas projeções e estimam alta em torno de 4% nas vendas do varejo em 2018, contra até 6% previstos no início do ano.

Estudo da CNC revela que o ímpeto de consumo de 52,7% dos brasileiros está menor do que em 2017. A desconfiança sobre o futuro, por causa da incerteza com a eleição, foi o motivo apontado por 64% dos entrevistados, que disseram que é um “momento ruim para a compra de bens duráveis”.

“Neste cenário de desemprego alto e incerteza sobre o futuro, o cidadão já fica mais retraído para comprar. Ele vê a greve dos caminhoneiros e pensa: “vai azedar ainda mais”. E posterga a troca de produtos mais caros - comentou Eduardo Yamashita, diretor do Grupo GS&Gouvêa de Souza.


Descontos de 40% a 70%. A comerciante Claudia Saad decidiu fechar sua loja de roupas de cama e banho depois de 14 anos funcionando na Zona Oeste de São Paulo. Ela contou que, depois de três anos de prejuízo e dificuldades de renegociar o contrato do aluguel, a única saída foi fechar:

“Estamos dando descontos a partir de 40% para vender tudo. Não vou mais ser varejista. Estou me formando para ser corretora de imóveis”.

A Tendências Consultoria revisou de 4,7% para 4,5% sua projeção para o crescimento do varejo ampliado (que inclui veículos e material de construção), impactado pela greve dos caminhoneiros. Para a economista Isabela Tavares, da Tendências, o consumo das famílias continuará puxando a economia, mas o ritmo será menor.

“A liberação dos recursos do PIS/Pasep, no segundo semestre, vai ajudar um pouco o varejo, mas o desemprego elevado e as incertezas com a eleição farão as vendas crescerem abaixo do que se esperava no início do ano”, explicou.

O Grupo GS&Gouvêa de Souza revisou de 4,4% para 3,9% a expectativa de crescimento do varejo ampliado. Já na CNC, a projeção é um pouco melhor, de 4,8%. No início do ano, no entanto, a entidade estimava alta de 6%. Com isso, a CNC também reviu sua projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,8% para 1,6% em 2018.

“O varejo é o motor da economia. Se o consumo não cresce, não tem como a economia crescer”, avaliou Fábio Bentes, economista da CNC.

No tradicional comércio de rua da João Cachoeira, em São Paulo, a administradora Daniela Rezende, de 34 anos, olha as numerosas faixas de liquidação e de descontos que vão de 40% a 70%. Mas a compra do dia foi modesta: um spray para impermeabilizar um sapato de couro e fazê-lo durar mais. O gasto foi de R$ 19,90.

“Os sapatos são lindos. Mas a situação não está para gasto” -- contou ela, que dizia temer perder o emprego diante de “tanta notícia sobre demissão”.

Só 1% vai comprar bem durável. Se o consumidor está adiando a compra até de sapatos, os bens mais caros nem entram na lista de prioridades. Um levantamento feito com consumidores pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) mostrou que o índice de brasileiros que pretendem efetuar uma compra de bem durável, como geladeiras ou eletrodomésticos, entre os meses de julho e setembro, é de apenas 1%.

“Os bens duráveis, além de vestuário e calçados, são os primeiros a sentir a queda de confiança do consumidor”, diz Ana Paula Tozzi, sócia da consultoria AGR.

Nos shoppings, a expectativa de vendas também não é das melhores. A Alshop não faz estimativas, mas avalia que o movimento deve ficar apenas um pouco acima do de 2017, quando as vendas atingiram R$ 147,5 bilhões, um crescimento de apenas 5% em relação a 2016.

“Copa e eleições já têm impacto negativo nas vendas dos shoppings. Neste ano, o reflexo da greve dos caminhoneiros balançou a tímida recuperação que se via na economia. A velocidade de vendas será menor do que a esperada no início do ano”, disse Luís Augusto Ildefonso, diretor de relações institucionais da Alshop, associação que representa os lojistas de shopping.

Ildefonso observa que todos os anos as lojas fazem liquidações de inverno, mas, quando o frio não chega — como aconteceu este ano —, as ofertas começam mais cedo.

Fonte: O Globo