Economia & Atualidade
Postado em terça-feira, 04 de março de 2025 às 15:06
As taxas dos DIs fecharam a sexta-feira em forte queda, superior a 30 pontos-base nos vencimentos mais longos, refletindo o recuo dos rendimentos dos Treasuries após as vendas no varejo dos Estados Unidos caírem mais que o previsto em janeiro.
O adiamento da cobrança de novas tarifas de importação pelo governo Trump foi outro fator de alívio para as curvas de juros nos EUA e no Brasil, assim como o recuo do dólar. Na reta final dos negócios, a divulgação de uma pesquisa Datafolha mostrando queda na avaliação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva contribuiu para o dólar renovar mínimas, conforme três profissionais ouvidos pela Reuters, o que também impactou os DIs.
No fim da tarde a taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2026 -- um dos mais líquidos no curto prazo -- estava em 14,785%, ante o ajuste de 14,832% da sessão anterior, enquanto a taxa para janeiro de 2027 marcava 14,78%, ante o ajuste de 14,946%.
Entre os contratos mais longos, a taxa para janeiro de 2031 estava em 14,53%, em queda de 31 pontos-base ante 14,839% do ajuste anterior, e o contrato para janeiro de 2033 tinha taxa de 14,49%, ante 14,8%.
Na véspera, o governo Trump detalhou um roteiro para aplicar tarifas de reciprocidade contra qualquer país que imponha impostos sobre os produtos norte-americanos. No entanto, as tarifas não entraram em vigor nesta quinta-feira, o que foi visto pelo mercado como uma estratégia do presidente Donald Trump para iniciar negociações comerciais com outros países.
Este adiamento das tarifas pesou sobre o dólar e os rendimentos dos títulos norte-americanos, com reflexos sobre as taxas dos DIs.
“Com o discurso um pouco mais leve de Trump e a compreensão de que a guerra comercial seria prejudicial, o mercado avalia que talvez este cenário (de tarifas mais altas) não ocorra tão rapidamente”, comentou Fabrício Voigt, economista da Aware Investments.
A queda das taxas futuras se intensificou no meio da manhã após o Departamento do Comércio dos EUA informar que as vendas no varejo caíram 0,9% em janeiro, depois de um aumento revisado para cima de 0,7% em dezembro. Economistas consultados pela Reuters previam que as vendas no varejo, que são em sua maioria mercadorias e não são ajustadas pela inflação, cairiam apenas 0,1%.
“O grande driver (condutor) hoje foram as vendas no varejo dos EUA, principalmente a parte do grupo de controle, que é como se fosse um núcleo, que veio muito aquém”, pontuou Lais Costa, analista da Empiricus Research.
De fato, as vendas excluindo automóveis, gasolina, materiais de construção e serviços de alimentação caíram 0,8% em janeiro, ante projeção de alta de 0,3%, conforme o Departamento do Comércio.
“Este descolamento com as expectativas, não explicado por uma questão sazonal, pareceu ser um sinal sobre a economia dos EUA, e não um ruído”.
Em reação, investidores elevaram as apostas de mais cortes nos juros dos EUA, o que se refletiu também na curva a termo brasileira e na queda firme do dólar ante o real.
Para Voigt, da Aware, o recuo das taxas futuras também esteve ligado ao ambiente interno, marcado nos últimos dias pela percepção de desaceleração da economia.
“O mercado já esperava um PIB (Produto Interno Bruto) menor, e agora o governo também passou a enxergar um PIB menor”, pontuou Voigt. Na véspera o ministério da Fazenda alterou sua previsão de crescimento para a economia em 2025 de 2,5% para 2,3%.
“Com o dólar recuando, deve haver espaço para a taxa de juros não crescer tanto. Mas tudo indica que ela vai chegar a 15% -- isso dificilmente não ocorrerá, porque a meta de inflação é de 3%”, acrescentou.
A pressão de baixa para o dólar no Brasil se intensificou ainda mais na última hora de negócios desta sexta-feira, após o Datafolha informar que a aprovação do governo Lula caiu 11 pontos percentuais em dois meses e atingiu 24% em fevereiro, enquanto a reprovação subiu para 41%.
Segundo o instituto, aqueles que avaliavam o governo como "ótimo ou bom" em dezembro caíram de 35% para 24% na rodada de fevereiro. Os que avaliaram a gestão como "ruim ou péssima" foram de 34% para 41%. Os 29% que consideravam o governo "regular" no fim do ano passado passaram para 32%.
Em paralelo ao dólar, as taxas dos DIs também intensificaram as perdas. Por trás do movimento está a avaliação, de parte do mercado, de que a queda da aprovação do petista significa menos chances de reeleição em 2026. Lula é visto por muitos do mercado como um presidente pouco propenso a promover os ajustes fiscais necessários no governo.
Fonte: Economia.Uol